24/02/2017

Na pauta, o transporte

“Os fortes investimentos em infraestrutura de transporte estimulariam o crescimento do país antes do previsto. Se destravar os projetos, o Brasil volta a crescer”

Foto: Arquivo CNT

O Brasil atravessa um dos seus períodos mais críticos, com uma grave crise econômica e instabilidade em diversos setores. Esse cenário tem afetado toda a sociedade. Com a atividade transportadora, não foi diferente. Houve queda de receita, redução de quadros de empregados e aumento de custos operacionais.

Na primeira edição de 2017 da revista CNT Transporte Atual, o presidente da Confederação Nacional do Transporte e dos Conselhos Nacionais do SEST e do SENAT, Clésio Andrade, defende os fortes investimentos em infraestrutura para reverter esse quadro. Em entrevista à reportagem, ele reconhece ações do governo do presidente Michel Temer para recuperar a economia, como a aprovação da PEC do teto dos gastos públicos e propostas de reformas estruturantes.

Entretanto, chama a atenção para a necessidade de priorização da agenda do transporte. “Talvez uma das principais vertentes que o governo ainda não soube cuidar sejam os fortes investimentos em infraestrutura”, avalia. Na conversa, Clésio Andrade reforça a posição da CNT para auxiliar na definição de projetos prioritários e dos recursos necessários à infraestrutura de transporte.

Também detalha como a instituição vem contribuindo para assegurar informações de qualidade sobre o setor transportador. Por fim, exalta a atuação do SEST SENAT e do ITL (Instituto de Transporte e Logística) no desenvolvimento dos trabalhadores do transporte. Leia a seguir.

Em 2016, tivemos o agravamento das crises econômica e política no Brasil, com aumento do desemprego, inflação, impeachment. De que forma o setor de transporte está sendo impactado?

Toda a economia do país está sendo impactada, seja no transporte, na indústria, no comércio e no turismo. As pessoas perderam renda. A última Sondagem Expectativas Econômicas do Transportador, divulgada pela CNT, mostrou que mais de 60% das empresas de transporte tiveram redução de receita em 2016 e cerca de 75% tiveram aumento de custo operacional. Não foi um ano fácil, mas devemos considerar que a situação do país é consequência dos erros dos anos anteriores. A grave crise na economia e as péssimas condições de infraestrutura são resultado de poucos investimentos. O impeachment é consequência de uma má gestão e assim por diante.

O setor retomou a confiança no governo, esperando que os investimentos em infraestrutura de transporte sejam feitos?

A mudança de governo cria essa retomada de confiança. O governo anterior estava sem credibilidade, não conseguia ter acesso ao Congresso, não tinha condições de aprovar reformas nem de gerenciar. Qualquer alteração nesse quadro traria novos ares, e é isso que aconteceu com o governo Michel Temer. Entre os transportadores ouvidos na Sondagem da CNT, mais da metade aumentou a confiança na gestão econômica do governo federal.

Qual avaliação o senhor faz desses meses de novo governo?

Começam a surgir fatos concretos que nos fazem acreditar que estamos no caminho correto. A aprovação da PEC do limite dos gastos públicos é muito importante. O país entra efetivamente em uma linha de responsabilidade fiscal. Se vamos controlar, vamos criar receitas para investir. Vamos usar a receita para gastar melhor, com resultados mais efetivos. A partir daí, o que vai melhorar? Entendemos que há dois cenários. No primeiro, de curto prazo, acho que não muda muita coisa. Mas os novos ares vão continuar, e o país está se preparando para mudanças. Em um segundo momento, quando o PIB voltar a crescer, não tenho dúvidas de que o Brasil entrará num círculo virtuoso de desenvolvimento de, pelo menos, 20 anos.

Há alguma medida que o senhor destacaria como essencial para a retomada do crescimento?

Não conseguimos enxergar solução específi ca de curto prazo. A PEC do teto dos gastos públicos foi a primeira, e as propostas para a Previdência são fundamentais. Sem reforma, não seremos benefi ciados no futuro porque o país não terá recurso para pagar. Mas há uma certa divergência entre a visão do governo e a nossa visão, da CNT. Talvez uma das principais vertentes que o governo ainda não soube cuidar sejam os fortes investimentos em infraestrutura. Isso estimularia o crescimento do país antes do previsto. Se destravar os projetos, o Brasil volta a crescer.

Faltam, então, ações mais concretas que priorizem esses investimentos?

O governo tem sinalizado positivamente para isso e tem sido cauteloso, tomando as medidas certas, como as questões previdenciária e trabalhista. Mas ainda não enxerga que tem capacidade e condições de fazer fortes investimentos em infraestrutura, independentemente de ter os recursos financeiros necessários. Grande parte dos projetos previstos no Plano CNT de Transporte e Logística pode ser feita em parceria com a iniciativa privada. Mas é necessário ter gestão, eficiência de procedimento. Deve-se criar segurança jurídica. Vontade, o investidor tem.


Foto: Arquivo CNT.

Com a atuação dos escritórios na China e na Alemanha, a CNT tem identificado real interesse dos investidores estrangeiros no Brasil?

O nosso escritório em Pequim tem demonstrado isto claramente: a importância de trazer esses investimentos estrangeiros. Na Alemanha, estamos buscando as melhores práticas de tecnologia. Precisamos de investimentos e dessa troca de informações. Os escritórios trabalham para identificar as oportunidades. Mas reforço que é necessário oferecer segurança jurídica e também deixar claro quais são os projetos.

A CNT defende alterações na legislação trabalhista. Qual a importância dessas medidas para o setor?

A reforma trabalhista é fundamental, e o governo tem lan çado medidas positivas. Mudanças são necessárias até mesmo para garantir a geração de empregos. O setor transportador e outros de intensa mão de obra empregam muito e sofrem mais as consequências. Por isso, a CNT e o transportador trabalham para melhorar a legislação trabalhista. A terceirização da atividade-fim, por exemplo, é fundamental. Senão, como vamos fazer com os caminhoneiros autônomos? Até para garantir o próprio trabalho deles, é preciso regulamentar a terceirização. Assim, é possível evitar distorções da lei. A legislação trabalhista é arcaica, provém da década de 1940. Para se ter uma ideia, a CLT fala do  trabalho de transporte como caixeiro-via- jante. É fundamental atuarmos nessa área, e a CAT (Comissão de Assuntos Trabalhistas), instituída pela Confederação, tem feito um amplo trabalho nesse sentido.

Modificações na questão tributária também são imprescindíveis nesse caminho de retomada do crescimento?

A reforma tributária é tão necessária quanto difícil. Talvez devesse ser a primeira a ser  realizada.  Mas é complicado conseguir uma proposta que atenda a todo mundo, e acho que isso não será feito agora. O país tem impostos pouco inteligentes, antigos e que não existem em lugar algum, como o PIS/Cofins, em que há incidência de um imposto sobre o outro.

A Cide gera aumento de custo ao transportador, mas o investimento em infraestrutura de transporte ainda é muito baixo. Como o senhor avalia essa cobrança?

Isso me faz lembrar de duas enganações. Uma foi a Cide para o setor de transporte. A outra foi a CPMF para a saúde. Em nenhuma das duas cobranças, o dinheiro foi para o lugar previsto. O governo usa o valor arrecadado para outras coisas. O que se colocou para o transporte vindo da Cide? Nada. Nós, transportadores, estivemos no Congresso e apoiamos a aprovação.  Achávamos que o benefício iria para o setor. Se não foi, deveria acabar.

O preço do diesel tem registrado sucessivos aumentos. Isso pode agravar ainda mais a situação do setor neste momento?

Essa questão reforça a tese de que a Cide não deveria existir. Se o combustível já está tão caro, ainda vai incidir mais taxa sobre ele? Hoje, o peso do diesel é grande, mas não sabemos se, nos próximos anos, isso será significativo. Há mudanças tecnológicas e outros combustíveis estão sendo desenvolvidos. De qualquer forma, temos que reconhecer que, às vezes, o reajuste é necessário. O que não pode acontecer é o aumento abusivo, acima da inflação, e que traz transtorno para o setor de transporte de cargas e de passageiros.

A CNT é referência em pesquisas e estudos sobre transporte. Em 2016, foi lançado o 1º Anuário CNT do Transporte e a Pesquisa CNT de Rodovias chegou à 20ª edição. De que forma essa atuação vem contribuindo para o Brasil?

Quando assumimos a CNT, não havia informação nessa área. O governo tentou, nos últimos 40 anos, fazer um plano de transporte para o país, mas nunca conseguiu. Não havia estudos técnicos para amparar as obras. Diante disso, a CNT resgatou a produção de informações sobre o setor. Fizemos o Plano CNT de Transporte e Logística, as Pesquisas CNT de Rodovias e de Ferrovias, a Pesquisa Aquaviária, o Anuário Estatístico, além de vários outros estudos técnicos. Esses trabalhos servem de base para orientar o transportador, informar a sociedade e auxiliar no planejamento dos governos. Tendo em vista a excelência desses produtos, os técnicos da CNT estão de parabéns. As nossas pesquisas e os nossos estudos se tornaram referência.

Quais novos trabalhos a CNT desenvolverá neste ano?

Vamos aumentar a produção de pesquisas e estudos, contemplando novas áreas do transporte. Já neste início de ano, lançaremos um estudo sobre fretamento rodoviário e uma pesquisa sobre o perfil do motorista de ônibus. Também teremos, em 2017, a segunda edição do Anuário Estatístico, que reúne todos os dados disponíveis sobre transporte no Brasil. Realizaremos, também, importantes trabalhos de análise econômica do setor. Na área ambiental, o Programa Despoluir​ vai intensificar as medidas voltadas à eficiência energética e implementar ações para redução de consumo e reúso de água nas empresas de transporte.  Para nós, a agenda da sustentabilidade é encarada como prioridade em todas as ações.

A atuação do SEST SENAT na qualificação do trabalhador do transporte tem apresentado ganhos na empregabilidade no setor?

A nossa atuação tem gerado resultados positivos ao longo dos anos. Por exemplo, fizemos recentemente um levantamento que mostrou que a maioria dos nossos ex-alunos considera o próprio desempenho profissional melhor depois das aulas. Para eles, a qualificação representou uma grande oportunidade de entrada no mercado de trabalho. Oferecemos no SEST SENAT mais de 300 cursos presenciais. E, até o final do ano, deveremos chegar a 200 cursos gratuitos a distância.

Foto: Arquivo CNT.

A capacidade de atendimento ao trabalhador do transporte será ampliada?

Vamos construir mais de 100 unidades. Com isso, o SEST SENAT vai ampliar o atendimento para mais 56 cidades. As outras serão construídas para substituir aquelas que hoje funcionam em estruturas menores, dentro de postos de combustível. A previsão é ter, em dois anos, por volta de 200 unidades em funcionamento. Vamos proporcionar maior acesso à capacitação profissional e a serviços de saúde. Para se ter uma ideia da nossa atuação, o SEST SENAT já realizou mais de 100 milhões de atendimentos.

O SEST SENAT lançou em 2016 o simulador híbrido de direção, projeto que alia tecnologia de ponta à capacitação de motoristas de ônibus e de caminhão. Essa iniciativa será expandida?

O simulador de direção é o nosso sistema de mais alta tecnologia. Um dos principais projetos de 2016 e talvez um dos mais avançados do SEST SENAT nos últimos anos. Começamos com 60 equipamentos. Nossa ideia é conseguir chegar ao final de 2018 com simuladores em todas as nossas unidades. A meta é treinar cerca de 50 mil motoristas de caminhão e de ônibus em três anos. Agora, em 2017, pelo menos mais 30 equipamentos serão adquiridos. Entendemos que a tecnologia é essencial na área de transporte e no atual mercado de trabalho.

Foto: Arquivo SEST SENAT​.

Esse projeto impacta também a segurança e a redução de custos dos transportadores?

Com certeza. O motorista pode simular diversas situações. A prática no simulador também incentiva a redução de custos dos transportadores. Temos trabalhos que indicam que o treinamento de motoristas pode contribuir para a redução de mais de 10% do consumo de combustível.

Quais são os planos do SEST SENAT para capacitação e qualificação dos motoristas já habilitados?

Neste ano, queremos capacitar 10 mil motoristas de ônibus e de caminhão, em cursos gratuitos, em todas as regiões do Brasil. O projeto Escola de Motoristas Profissionais é muito importante porque alia teoria à prática. Os treinamentos são realizados em veículos com tecnologia embarcada e em pistas apropriadas para o aprendizado.

Além desses projetos, quais outras ações vão contribuir para a melhoria da qualidade de vida do trabalhador em 2017?

Estamos ampliando as ações neste ano. Com a construção das novas unidades, mais profissionais do transporte terão acesso à odontologia, fisioterapia, nutrição e psicologia. No ano passado, ultrapassamos 7,6 milhões de atendimentos. Algumas ações que têm tido sucesso são o Circuito SEST SENAT de Caminhada e Corrida de Rua e a Copa SEST SENAT de Futebol Society, que têm a participação de 100% de trabalhadores do transporte.

O senhor poderia falar da importância do Comandos de Saúde nas Rodovias que, em 2016, completou 10 anos?

O Comandos de Saúde é realizado junto com a Polícia Rodoviária Federal e já fizemos mais de 90 mil atendimentos. Mas essa é somente uma parte de uma grande medida, o Programa CNT e SEST SENAT de Prevenção de Acidentes. A ideia não é ficar restrito às rodovias. Queremos chegar também aos postos de combustível, terminais de carga, pontos de táxi e terminais de passageiros. O trabalho do SEST SENAT pela prevenção e pelos cuidados com a saúde do trabalhador passa também pelo projeto Transportando Saúde nas Cidades e pelo Saúde nos Portos. O programa maior terá todos esses projetos sendo levados simultaneamente para mais pessoas.

Como o ITL, o SEST SENAT e a CNT vêm trabalhando na capacitação dos profissionais que atuam na alta gestão das empresas do transporte?

Temos atuado de várias formas para promover a excelência na gestão. A Especialização em Gestão de Negócios ministrado pela Fundação Dom Cabral, que capacita empresários e executivos, é o nosso carro-chefe, desenvolvido desde 2013 em uma parceria entre ITL e SEST SENAT. Já formamos mais de 350 profissionais e estamos chegando neste ano à 20ª turma, com previsão de abertura de mais outras cinco. Nesse primeiro momento, serão atendidos cerca de 1.200 profissionais da alta gestão das empresas de transporte. O ITL vai lançar uma plataforma específica de relacionamento entre esses executivos para que haja interação sobre os trabalhos das diferentes empresas. Vamos criar um projeto de bolsas de estudos  internacional. Pretendemos oferecer mestrado no exterior aos executivos que se destacaram mais.

O ITL também tem investido na qualificação gerencial do setor aéreo?

Para essa qualificação, o SEST SENAT firmou parceria com a Embry Riddle, a maior universidade aeronáutica do mundo, com sede nos Estados Unidos. No ano passado, abrimos um curso muito interessante para a capacitação de gestores das maiores empresas aéreas do país, muitos deles são pilotos. Essa parceria mostra não só a nossa atuação em todos os modais, mas também como a entrada do setor aéreo na CNT foi positiva. Esse segmento trouxe uma visão nova, de alta tecnologia, de excelência.

O Prêmio de Jornalismo chega à 24ª edição neste ano. Qual a importância de incentivar a produção de reportagens sobre o tema transporte?

O transporte é um segmento que sempre será visto. As pessoas vivenciam o transporte nas rodovias, nas ferrovias, no setor aéreo, no aquaviário. Então, é muito melhor que o setor seja visto pela imprensa, que nos ensina a melhorar comportamentos, a enxergar os erros e os acertos. O Prêmio incentiva a produção de reportagens sobre o nosso segmento, sejam elas críticas ou não. No início, não foi fácil fazer o setor entender isso. Mas continuamos assim, premiando matérias críticas, e hoje essa situação é vista com mais aceitação. Nós, do transporte, aprendemos muito com o Prêmio de Jornalismo.

 

Cynthia Castro/Agência CNT de Notícias
Revista CNT Transporte Atual