22/04/2015

Uso inteligente da água

Reaproveitamento do recurso hídrico é saída para evitar escassez em todo o país.

Cia Docas de São Sebastião/Divulgação

SUSTENTABILIDADE - Uso inteligente da água​

Um novo paradigma de sustentabilidade ambiental, baseado nos conceitos de conservação e reúso de água, está evoluindo por meio da conscientização e da sensibilização das pessoas para minimizar custos e impactos ambientais. Antes mesmo da escassez de água atingir algumas regiões do Brasil, empresas de transporte já adotavam boas práticas no uso do recurso hídrico. As medidas aplicadas por essas companhias para o uso inteligente da água têm gerado resultados positivos, contribuindo para a conscientização e a sensibilização da sociedade em relação à conservação da água. 

A implementação da prática de reúso de água já é uma realidade adotada em alguns países, inclusive pelo Brasil. Atualmente, a tecnologia e os fundamentos ambientais permitem fazer uso e reúso dos recursos hídricos disponíveis mediante programas adequados de gestão. E o setor de transporte está atento, pois corre o risco de não realizar as atividades de lavagem de frota durante o período da seca.

Um bom exemplo é o sistema de reaproveitamento de água utilizado na lavagem dos ônibus pela Viação Águia Branca em garagens no Espírito Santo, na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os 2,6 milhões de litros de água utilizados, por mês, na limpeza dos veículos são encaminhados para um sistema contínuo de triagem para reaproveitamento. O modelo reduz em 50% o consumo do recurso e, ainda, reaproveita 31,2 milhões de litros de água por ano, o que daria para encher 12 piscinas olímpicas. 

A empresa reaproveita a água utilizada na lavagem dos mais de 700 ônibus de sua frota há mais de 30 anos. A limpeza dos veículos é feita diariamente e toda a água utilizada para a lavagem é encaminhada para um sistema de triagem. “A água usada passa por sistema de separação de água e óleo e, em seguida, segue para filtros para a retirada das impurezas e do odor, retornando para o uso em novas lavagens”, explica o gerente de Suprimentos e Meio Ambiente da Viação Águia Branca, Virgílio Pasolini. Outra iniciativa adotada pela empresa é a utilização da água potável dos galões que ficam dentro de alguns ônibus. A água que não é consumida pelos passageiros, antes jogada fora, atualmente é reaproveitada na lavagem das capas de tecido que cobrem os bancos dos veículos. 


Economia: os mais de 700 ônibus da empresa Águia Branca são lavados com água tratada para reúso ou água da chuva.

Foto: Viação Águia Branca/Divulgação


Para aprimorar as técnicas de reaproveitamento, há dois anos, foi instalado na unidade de Cariacica (ES) um sistema de tratamento dos efluentes da lavanderia, carroceria, do lavador de peças e do chassi dos veículos. Com ele, a água também é reaproveitada na lavagem dos automóveis. Além disso, a empresa  reutiliza a água da chuva na lavagem dos banheiros e carros. “Estimamos economizar cerca de 300 mil litros de água, por mês, neste novo sistema. Em algumas garagens, fazemos o reaproveitamento da água de chuva”, reforça Pasolini.

Segundo pesquisa feita em lava-rápidos e em empresas de ônibus de São Paulo, os sistemas de reúso de água geram uma economia de até 80%. O estudo de autoria do engenheiro Eduardo Bronzatti Morelli para a Escola Politécnica (Poli) da USP (Universidade de São Paulo) mostra que, após tratamento adequado, a água pode ser usada até seis vezes sem prejudicar os veículos. “A água da lavagem é recolhida por meio de canaletas e, de início, é levada para um tanque de sedimentação, onde a areia se deposita no fundo e resíduos de óleo e graxa ficam na superfície. As medições da qualidade da água apontaram que ela pode ser utilizada com reaproveitamento de 70% a 80%, sem causar danos aos veículos", explica Morelli.

Não são apenas empresas de ônibus que estão aderindo o sistema de aproveitamento de água. No Rio de Janeiro, a linha 4 do metrô, que faz a ligação entre a Barra da Tijuca e Ipanema, mostra que é possível preservar esse importante recurso, mesmo em uma obra complexa. Na construção dos 16 quilômetros de extensão da nova linha, a água utilizada pelos equipamentos é reutilizada na lavagem dos caminhões, máquinas e pneus de veículos que circulam nos canteiros, assim como na umectação dos canteiros e de ruas do entorno. O objetivo é reduzir a poeira gerada pela obra, a fim de minimizar o volume de partículas no ar e, consequentemente, o incômodo para a comunidade. 

Desde 2011, cerca de 200 milhões de litros de água passaram pelas estações deste trecho previsto para ser entregue no segundo semestre de 2016. A quantidade daria para abastecer 18,3 mil casas por um mês. A reutilização da água na obra não para por aí. Até os gotejos dos aparelhos de ar-condicionado são reaproveitados. Os 750 litros de água recuperados, por semana, somados à captação da água de chuva são reutilizados para lavar as botas e nos serviços de limpeza das salas, pisos e banheiros.

Na Zona Sul, duas estações de tratamento de efluentes reaproveitam cerca de 130 mil litros de água por dia. No canteiro onde está sendo construída a Estação Antero de Quental, no Leblon, a água do rebaixamento do lençol freático é utilizada para umectação de ruas, o que reduz a poeira e contribui para a limpeza do entorno da obra. Além disso, para impedir que os caminhões deixem os canteiros e sujem as ruas com resíduos, a água utilizada passa por quatro caixas decantadoras até retornar ao sistema de tratamento e recomeçar o ciclo de reaproveitamento. 


Reúso: Linha 4 do Metrô no Rio de Janeiro reaproveita cerca de 130 mil litros de água por dia.

Foto: Linha 4 do Metrô/Divulgação


No canteiro Igarapava, a estação trata, diariamente, cerca de 100 mil litros de água que é utilizada nos serviços de limpeza do próprio canteiro e também para umectação das ruas. Já na Central de Concreto são tratados e reutilizados cerca de 30 mil litros de água por dia. A água com resíduos, resultante da lavagem dos caminhões betoneira, escoa para caneletas espalhadas por todo o terreno, ligadas à estação de tratamento. Depois de tratada, parte da água é reutilizada para o “lava rodas” e a própria lavagem das betoneiras, numa vazão média de 25 mil litros por dia. A outra parte é destinada à rede de drenagem pluvial. 



Limpeza: na nova linha do metrô do Rio de Janeiro, a água usada pelos equipamentos é reutilizada na lavagem dos caminhões.

Foto: Linha 4 do Metrô/FDV Studio/Divulgação



Reuso: gotejos de ar-condicionado são usados para lavar botas.

Foto: Linha 4 do Metrô/Divulgação


O segmento aquaviário também não deixa a desejar. A Companhia Docas de São Sebastião (SP) conta com dois projetos de reaproveitamento da água. O primeiro, implantado há seis anos, permite que toda a água utilizada na lavagem dos caminhões durante as operações portuárias seja reaproveitada. 

Cerca de 200 veículos são lavados, por dia, desde que o projeto foi adotado. O modelo foi adaptado recentemente, permitindo a separação do óleo das caixas de tratamento da água, oferecendo maior utilização e mais ciclos de reúso. O segundo projeto adotado pela empresa ainda está em fase de implantação. A ideia é recolher a água da chuva captada nos três telhados dos armazéns de 6 mil m2 para abastecer o sistema de limpeza da companhia e reutilizar na umectação de vias para evitar o acúmulo de poeira no local. “É uma excelente forma de reutilizar um recurso cada vez mais escasso”, defendeu o gerente de meio ambiente da Docas de São Sebastião, Adriano Truffi Lima.

O Porto de Itajaí também implantou um programa de redução de consumo de água com objetivos e metas bem definidos. De acordo com o projeto, o intuito é reduzir, em 2015, pelo menos 5% do consumo de água utilizado no ano passado. Além disso, a empresa também investirá em treinamentos e palestras para colaboradores e para a comunidade sobre a conscientização do uso da água. “Implantamos projetos de reutilização da água pela necessidade de consumir o recurso com consciência. Temos uma política de sustentabilidade que prevê a realização de campanhas em diversas áreas sobre boas práticas no uso do recurso hídrico”, explicou a gente de meio ambiente do Porto de Itajaí, Médelin Pitrez dos Santos. 

De acordo com o professor de Pesquisa da UnB (Universidade de Brasília), Daniel Sant’Anna, é necessário que os órgãos competentes regulamentem as regras para sistemas que façam uso da água das chuvas. “Precisamos de diretrizes de funcionamento que estipulem as soluções e a fiscalização dos sistemas de reúso de água. Por exemplo, as instalações hidráulicas devem ser separadas das tubulações de água potável”, disse.

Sant’Anna afirma ainda que a gestão da água é baseada apenas na oferta e a medida que vai aumentando o consumo, novas fontes vão sendo exploradas. “Os pesquisadores já alertavam que o nível de água do Sistema Cantareira, em São Paulo, poderia baixar bastante. Promover a conservação da água sai mais barato do que remediar o problema. É interessante observar que as empresas de transporte estão se adequando e adotando modelos de reutilização dos recursos hídricos”, afirmou.

 

Jane Rocha
Revista CNT Transporte Atual - 2015/234

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