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Metrô é caro, mas é possível

29/05/2017

Entrevista com Vânia Barcellos Gouvêa Campos, mestre em transporte


Por Agência CNT de Notícias
“Penso que essa é mais uma questão de vontade política, de decisão de utilizar o recurso que se tem para implantar um determinado sistema de transporte”
Arquivo pessoal

As soluções para a melhoria da qualidade do transporte de passageiros passam por uma série de medidas. Entre elas, uma preocupação maior em se adequar à ocupação do uso do solo, a necessidade de se dar prioridade ao transporte público e a oferta de calçadas em bom estado de conservação. Mas na opinião da arquiteta e mestre em transporte Vânia Barcellos Gouvêa Campos, professora do programa de mestrado em engenharia de transporte do IME (Instituto Militar de Engenharia), o Brasil precisa investir mais no transporte sobre trilhos.

Para a especialista, o metrô é uma grande solução para oferecer mais mobilidade em algumas cidades brasileiras, proporcionando melhoria da qualidade de vida da população. Vânia considera que se houver vontade política, é possível sim investir mais na ampliação e construção de sistemas de metrô no Brasil. Leia a seguir a entrevista.

No livro “Planejamento de Transportes – Conceitos e Modelos”, lançado no ano passado, a senhora destaca a importância de se modelar o comportamento da demanda de transporte para definir alternativas. Como isso deve ocorrer na prática?

Fazer a modelagem da demanda é importante para que a oferta de transporte possa se adequar à necessidade das pessoas. É pensar no planejamento de transporte. Com a previsão de demanda feita de forma adequada, pode-se definir alternativas de transporte de médio e também de longo prazos. É muito importante planejar para antever problemas que podem acontecer.

Como o Brasil tem desempenhado esse trabalho de planejamento do transporte urbano de passageiros? 

Não tem desempenhado bem. Nem o de passageiros nem o de cargas. Esse planejamento não tem ocorrido da forma como deveria. O que temos feito é correr do prejuízo. Temos vários problemas. O que acontece é que vamos propondo alternativas de transporte para reduzir os problemas que já estão ocorrendo.

Qual exemplo a senhora citaria?

Ao longo de muitos anos, ao se pensar no deslocamento das pessoas, não houve prioridade para o transporte de massa. Mas  houve a preocupação em priorizar a utilização do automóvel. Muitas vias de muitas cidades foram construídas pensando no automóvel, deixando de lado o transporte coletivo.

Faltou também um investimento maior no transporte de passageiros sobre trilhos?

Com certeza. Era necessário que tivessem pensado em como promover a implantação de metrô, de sistemas de transporte ferroviário, que são sistemas de grande oferta de lugares de passageiros. Isso ajudaria a tirar um pouco as pessoas do uso do automóvel.

O que a senhora pensa sobre a alternativa que vem sendo adotada em muitas cidades em relação ao BRT (Bus Rapid Transit)?

Hoje, muitas cidades estão implantando o BRT, que é uma forma de usar a estrutura viária que já temos. Com o BRT, é possível oferecer um sistema que tem uma capacidade melhor do que a capacidade dos ônibus comuns. A tendência nas cidades tem sido essa, já que o sistema metroviário é caro e leva muito tempo para ser implantado. Mas, na verdade, se já viéssemos fazendo isso há muitos anos, teríamos uma rede de metrô bem melhor do que a que temos hoje. Atualmente, se faz o BRT, mas poderíamos estar também tentando crescer o sistema metroviário.

E por que não há no Brasil o investimento em metrô como se deveria?

Penso que essa é mais uma questão de vontade política, de decisão de utilizar o recurso que se tem para implantar um determinado sistema de transporte. A solução apresentada pelo BRT é bem-vinda, até mesmo porque o metrô leva um bom tempo. Então, enquanto não temos uma rede de metrô que a população possa utilizar para diferentes destinos, enquanto essa rede não cresce, o BRT é uma boa solução. Mas acho que em um prazo maior, pensando na qualidade de vida das pessoas que utilizam o transporte urbano, o metrô é sim uma das principais soluções. É um tipo de transporte que oferece melhor mobilidade nas grandes cidades e tem como consequência a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Em quais locais do país o metrô seria indicado?

Nos grandes centros. Acho que nas médias cidades é uma questão de observar o crescimento e, às vezes, tentar resolver as questões de ocupação do solo e transporte. Mas cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Fortaleza, por exemplo, têm indicação de um investimento maior. Até mesmo Curitiba, que tem o BRT implantado também há anos. Em alguns locais, como o Rio de Janeiro, será implantado o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). Eu acho necessário que o transporte sobre trilhos tenha um investimento maior.

Como a senhora enxerga a justificativa de que o metrô é muito caro e é necessário buscar soluções mais viáveis economicamente?

Independentemente desse discurso de que é mais caro, penso que é uma questão de qualidade de vida. Realmente, metrô é caro. Mas é possível. E, no longo prazo, a rede vai crescendo e se conectando, passando a ter mais opções. O metrô traz mais qualidade de vida, não polui visualmente nem a atmosfera. E, à medida que a rede se tornar mais saturada, pode haver a integração com os ônibus. O transporte sobre trilhos precisa ser pensado no Brasil. O Rio vai implantar o VLT. Há diferentes alternativas, mas nada melhor do que o sistema metroviário. E sempre incentivando as pessoas a não utilizarem o automóvel ou a utilizarem o automóvel até um determinado ponto das cidades. As bicicletas, por exemplo, podem ser usadas até uma estação ferroviária. Isso pode ser incentivado.

Como relacionar o uso e a ocupação do solo no Brasil à implantação do sistema de transporte?

O que se vê é que temos que relacionar a ocupação do solo ao sistema de transporte. Mas isso não ocorreu da forma que deveria. No Rio de Janeiro, por exemplo, durante muitos anos, houve investimento na Barra da Tijuca, tanto expansão do mercado imobiliário como do comércio. Mas as vias de acesso ficaram saturadas e as novas vias já estão saturadas. E acabaram facilitando e muito o uso de automóveis. Já deveria, há muitos anos, ter sido pensada alguma solução de transporte sobre trilhos ou mesmo o BRT. Hoje, o que se observa são grandes congestionamentos. Não se pode pensar em adensar determinada área sem fazer um plano de transporte. Agora, estão implantando BRT na Barra, e o metrô vai chegar lá. Mas a expansão já está bem maior.

São medidas boas, mas que chegam atrasadas?

Geralmente, tudo é atrasado no Brasil. O único lugar em que houve um pensamento mais profundo de associar o uso do solo ao transporte foi Curitiba. Jaime Lerner (arquiteto e urbanista que foi prefeito de Curitiba e implantou o BRT) teve essa preocupação, de que o adensamento acontecesse conforme o planejamento do transporte, com edifícios próximos da linha do BRT, criando a demanda do transporte. Hoje, a situação lá também já está meio complicada.

Há algumas medidas simples e com resultados positivos para o trânsito das grandes cidades, como o BRS (Bus Rapid Service), implantado em algumas vias do Rio de Janeiro?

O BRS é uma faixa exclusiva para o ônibus. Na avenida Nossa Senhora de Copacabana, por exemplo, há faixas exclusivas, permitindo melhores ultrapassagens, e os ônibus também não param em todos os pontos. Há um aumento da velocidade operacional. No Rio, observamos que realmente o BRS valorizou mais o transporte coletivo. É uma opção mais barata de organização do sistema. Antes, os ônibus paravam em qualquer ponto, havia muitos ônibus.

Como o Brasil está em relação à chamada mobilidade urbana sustentável?

Esse conceito de mobilidade urbana sustentável se refere primeiramente à utilização de viagens a pé ou de bicicleta. É o chamado transporte ativo, porque é saudável e não é poluente. Mas, para isso, é necessário ter calçadas, ciclovias, ciclofaixas. E há lugares, no Brasil, onde simplesmente não há calçada. O transporte coletivo também é visto como uma modalidade de mobilidade sustentável. Então, é necessário melhorar o transporte coletivo para estimular as pessoas a deixarem o automóvel em casa.

A falta de calçadas é um problema grave de muitas cidades?

É um problema sim. Em Belém, por exemplo, fui recentemente e verifiquei que as calçadas são muito ruins. Algumas cidades pequenas também precisam investir mais nas calçadas. Brasília, que é a capital do país, não foi feita para o pedestre. Era outro pensamento, uma cidade muito voltada para o automóvel. Hoje se percebe que esse não é o melhor modelo. 

A senhora defende restrições ao uso do carro particular?

Sim. Fiz um trabalho com um aluno sobre o pedágio urbano, que é a restrição do automóvel em algumas áreas, como foi implantado em Londres. Mas todas as cidades em que esse pedágio urbano foi implantado tinham um sistema de transporte coletivo muito bom. Para se implantar no Rio de Janeiro ou em São Paulo, teria que ser feita toda uma estruturação do transporte coletivo. Tem que ser criada uma situação em que a pessoa tenha onde deixar o carro. Mas essa é uma medida que pode ser útil desde que seja oferecida uma estrutura. Não dá para restringir sem oferecer alternativas. No Brasil, ainda precisa ser bem trabalhado isso.

Os grandes centros urbanos do Brasil encontram-se em uma situação crítica em relação à mobilidade urbana. Em cidades como Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, é possível ainda reverter essa situação? De que forma?

A reversão disso não vai acontecer em curto prazo, mas sim em médio e longo prazos. O transporte sobre trilhos é a solução que precisa ser pensada. Se tivessem investido mais desde que implantaram a primeira linha em algumas cidades, o sistema teria crescido aos poucos e, hoje, estaria bem melhor. Então, precisa ter vontade política para priorizar. A bicicleta e a caminhada, desde que se tenha boa calçada, também são boas opções para evitar o uso do carro particular. É importante haver uma conscientização da própria população sobre a opção por um transporte mais sustentável. De qualquer forma, é preciso oferecer um transporte melhor para as pessoas. Sem isso, é difícil ocorrer a mudança de hábito.

E como está o Brasil em relação ao incentivo do uso da bicicleta?

Hoje, temos realmente que implantar ciclovias ou ciclofaixas para que as pessoas se sintam seguras de utilizar a bicicleta. Sem isso, é difícil. Vejo muita gente querendo usar a bicicleta, mas não se sente seguro. Também é importante a implantação de estacionamentos para as bicicletas nas estações de metrô e em outros locais. Tem que ser criada uma rede cicloviária interligando pontos importantes, como faculdades, shoppings etc.

Estamos a poucos meses da Copa do Mundo, ainda é possível fazer algo para melhorar a mobilidade urbana nas cidades?

Está tudo muito atrasado em relação a transporte. O BRT está sendo implantado, mas está atrasado para a Copa em muitos lugares. Acho que o que irá ocorrer é um esquema para melhorar a circulação em grandes eventos. Faltou agir no momento certo. Faltou melhorar a malha do metrô, implantar sistemas de BRT. Isso está sendo feito. Há medidas positivas, mas não foram feitas no tempo certo. Começaram a ser implantadas tardiamente. Então, terá que haver o esquema emergencial.

No transporte de cargas, como a senhora avalia a questão do planejamento?

O escoamento de carga, da grande produção que temos no país, tem uma logística péssima. O transporte ferroviário deveria ser maior. Mas a maior parte do transporte ainda ocorre pelas rodovias. Poderíamos utilizar mais as hidrovias, fazer o transporte multimodal com mais qualidade. Mas durante anos não se pensou em investir nessa área. Hoje, a ferrovia tem novos projetos, mais ainda é muito pouco perto da necessidade do país. Há projetos para as hidrovias. Mas o fato é que o país ainda está muito mal, bem longe de escoar sua produção da forma ideal. Esse sistema é muito caro e faz com que o nosso produto fique caro no exterior.  

Cynthia Castro